Tuesday, 1 December 2009

#7

(deposito tanta esperança em certas coisas, por vezes, vou-me enganando, vou acreditando... e depois, de um momento para o outro, por uma complicação que pode nem ser real, a única coisa que faz sentido é ir chorar para a cama, enrolado em cobertores, à espera de qualquer coisa que se assemelhe com o fim do mundo.)

a única coisa que existe no centro do meu mundo

sou eu.

Wednesday, 8 July 2009

#6

Serei a única pessoa em Portugal que, em vez de "j(e)-még-ma", diz "s(e)-még-ma", ao ler a palavra "smegma"?

Wednesday, 7 January 2009

#5

Este texto não é necessariamente uma coisa má, nem tampouco é uma queixa ou um desabafo de uma mágoa qualquer; não, este texto pretende ser só uma constatação.
Tenho, finalmente, as minhas ideias, os meus objectivos (por mais utópicos e inverosímeis que pareçam, existem), neste momento: fazer a revista literário-artística/qualquer-coisa-assim, ir mantendo os blogs mas, sobretudo, o lonely gigolo, com pelo menos um texto por dia (e tentando compensar, nos dias em que escrevo, pelos outros, em que não escrevi nada), ainda que só saia porcaria, ir saindo com os amigos, ouvindo, sempre que possível, música nova, vendo o máximo de filmes independentes possível, o máximo de teatro possível, o máximo de espectáculos possível. Mas, quanto à premissa de manter os blogs e, em última análise, ir escrevendo mais, quero explanar. Acontece que passei mesmo muito tempo sem escrever, pelo menos sem escrever tão regularmente, e perdi mesmo muito tempo só a desculpar-me, enquanto procurava razões para não ir escrevendo. "É uma fase, isto passa, é só falta de inspiração", "É de não ler nada", "É de estar desmotivado", "É de não ter ninguém na minha vida", "É de ter gasto todas as palavras com algumas pessoas e agora não sobrar nada", "É de já não ser acompanhado pelos meus Amigos da faculdade", "É de não poder partilhar isto com ninguém daqui", "É da falta de tempo", "É de jogar demasiados jogos de vídeo", "É de não me sentar e escrever", "É de ter sabido deixar de pensar", "É de estar afastado do mundo das letras", "É de ser um incompreendido", "É de não ter jeito e ver tanta gente que faz isto melhor que eu", "É desmotivação por ninguém me dizer nada, e eu não escrevo para a gaveta", "É de não saber a técnica disto", "É de ficar acordado noites seguidas", "É de dormir demais"... enfim, eu perdi mesmo MUITO, muito - demasiado - tempo nestas conjecturas e, um destes dias, falando com uma grande Amiga (que tantas vezes, e ainda hoje quero um bocadinho, quis que fosse mais que isso, da amizade, e tal), e ouvindo-a dizer "eu escrevo e sei que às vezes até posso nem estar a escrever nada de jeito, mas não me interessa, escrevo porque, olha, porque gosto, porque me sinto bem a escrever", cheguei à conclusão que não sei porque é que escrevo. Mas a verdade é que, se calhar, não me devo ralar com isso! Eu sei que escrevo relativamente bem, mesmo que me repita na temática, nas imagens, nas metáforas, no intuito dos textos (sendo que muitos deles parecem cópias uns dos outros...), por isso, o que me importa é apostar nisso, é ir escrevendo mais, tentando mais, por mais que "esteja pior do que antes", por mais que "já não me saia nada de novo", por mais que "ninguém me leia"... tem de ser, independentemente das razões de escrever, ou não. Reconheço que já há muito tempo deixou de ser por prazer, mas também não é uma coisa que faça com esforço... faço... porque sim, porque se dá que o faço e, quando o faço, faço-o com entrega e relativa facilidade. Daí que queira apostar nisso. Trabalhar nisso, ser - tentar, pelo menos - cada vez um bocadinho melhor nisso. O máximo possível. Lutar por isso, já que tão pouco mais parece valer a pena, nesta coisa da minha vida...
Espero, um dia, poder convidar todos os amigos dos blogs, todos os amigos que lêem ou leram os meus cadernos, todos os amigos de noites fora, todos os amigos que não vejo há tanto tempo, todos os amigos que vejo quase todos os dias para o lançamento dessa coisa que há-de ser o meu Livro. Que já existe, de certa forma, a ser enviado para editoras sleccionadas, após pronta revisão.
Mais uma vez, um sentido Obrigado pela companhia, pela paciência, pela amizade! Não é que seja necessário, mas deixo, novamente, os links para os meus blogs de jeito (i.e., os blogs não-apenas de desabafo, os blogs de estrutura mais formal e ordenada, que pretendem apenas ser uma montra das coisas que existem em mim e que se vomitam em tons estelares cá para fora):

lonely gigolo
exanimatus
conFusão (conjunto)
ossa et cinera (conjunto - extinto, mas MUITO relevante)

Wednesday, 9 April 2008

#4

Estou farto. A sério. Mesmo muito farto. Das conversas alegres com palavras infantis, particularmente com as amigas que tiraram o curso de educadora de infância, e que acham assaz piada a que se dialogue como se tivéssemos seis ou sete anos de idade - ou menos que isso, para falar verdade! Estou farto de que toda a gente se meta na minha vida e me imponha o que se deve ou não deve fazer ("Tens de procurar fazer alguma coisa", "Não podes estar sem fazer nada", "Precisas de conhecer novas pessoas", "Falta-te vontade de viver", etc), farto de deixar o tempo passar, ter novos amigos, fazer novas coisas, mas estar sempre sozinho e não conseguir esquecer uma pessoa em particular. Estou farto de não ter ninguém com quem poder falar de nada e o pior é que eu próprio me fui retirando da vida das pessoas a quem podia falar de tudo, ou fui-me convencendo de que não tenho o direito de sobrecarregar as pessoas de quem gosto com os meus problemas, os meus fardos, as minhas ninharias emocionais. Toda a culpa de tudo é minha e isso é uma carga muito pesada para se suportar.

Tuesday, 13 November 2007

#3

Parece-me absurdamente fácil morrer novo. No fundo, deixar que os outros, sempre mais capazes de tudo, menos da miséria e da angústia, que eu, façam todas as coisas que importam, por mim. É fácil morrer um destes dias. Estou quase a acabar um caderno que comecei em 6 de Maio de 2003, que atravessou muitas coisas, e possui nomes, rasuras, referências, menções, algumas feridas mais ou menos cicatrizadas, como, de resto, é normalíssimo. Era-me fácil deixar esse caderno e os outros todos antes, mais o próximo, que já foi iniciado há uns meses, juntamente com uma nota completamente lamechas e a puxar ao sentimento, dirigida aos meus pais e a alguns amigos mais próximos, pedindo-lhes que tentassem, por tudo, editar-me postumamente, já que, em vida, nunca tenho a espinha dorsal para tal.
Era, sobretudo, concretizar um desejo que, em si mesmo, é impossível ou, pelo menos, inverosímil; o de desaparecer daqui, partir, um dia, num autocarro ou num comboio decadentes, de interior, para outro lugar, onde ninguém me conhecesse, onde a minha vida não existisse, onde me pudesse inventar, ser eu a criar-me, tão poético quanto possível, sem recordações de uma outra vida, sem velhas angústias, sem plasmas antigos, sem memórias que incineram as vontades.
A vida "real" impõe-me limites que não entendo. Não me faz sentido que tenha que trabalhar para ganhar dinheiro para pagar o bilhete de autocarro ou de comboio decadentes de interior e para pagar de raiz a recriação estrutural da minha vida noutro local. Tudo isto deveria ser de graça. É uma coisa necessária e, como tal, deveria ser oferta da vida, em si; só depois, enfim, dessa estabilidade requerida, seria, pois, possível, que me entretivesse a procurar e encontrar um emprego que me satisfizesse e me realizasse pessoalmente. Mas, aparentemente, o meu funcionamento tão inverso não vê as coisas na sua ordem correcta de ser e de se processar.
Era fácil dedicar-me ao nada, que tão bem sei fabricar, congeminar e viver, e deixar que todos fizessem tudo por mim. Às vezes, até respirar.

Thursday, 11 October 2007

#2

Quem me conhece sabe da minha intensa admiração por Boris Vian. Aliás, nos últimos tempos, tem sido apenas Vian, que tenho conseguido ler. Sinto-me, à imagem da personagem Chick, do livro A Espuma dos Dias (L'Écume des Jours, no original) - lá está, do próprio Vian - que vivia apenas para coleccionar livros do Jean-Sol Partre (nítida satirização de Jean-Paul Sartre), um ávido coleccionador de obras do seu próprio criador. Obviamente que, vivendo num mundo em que o dinheiro pesa bastante mais, do que nas obras ficcionais de Vian, é-me impossível, de um ponto de vista físico, até, viver para o coleccionismo e para o fanatismo em torno de um autor e suas obras, como era o caso de Chick. Mas tenho conseguido encontrar alguns livros. O primeiro que comprei foi As Formigas (Les Fourmis), uma pequena colecção de onze contos bizarros, fantásticos, onze formigas, obviamente surreais - mas surreais de uma forma tão palpável e perceptível, que, em muitas realidades, poderiam efectivamente ter-se processado; contos repletos de personagens carismáticas, divertidas ou assustadoras, mas, todas elas, absurdamente comuns e humanas, passíveis de uma existência, de tão irreais que são. Depois, acabei por comprar A Erva Vermelha (L'Herbe Rouge), juntamente com O Outono em Pequim (L'Automme à Pékin), na banca de livros em segunda mão, que costumava haver no átrio da Torre da Faculdade. Li, assim que pude, A Erva Vermelha, mas fui adiando a leitura d'O Outono em Pequim, confesso, por causa da apresentação da capa (já lá havemos de chegar) e do estado, em geral, de conservação do livro. Entretanto, comprei o já referido A Espuma dos Dias, que li ainda antes de sequer ter pegado no livro que tinha adquirido antes, e do qual me tinha desinteressado ligeiramente.
A minha edição d'O Outono em Pequim é uma edição da Ulisseia, datada de 1965, cheira a livro velho, usado, tem uma assinatura de alguém que o teve em 1966, cujo nome me é imperceptível (Jaime Ferreira? Jaime Francisco? Outra coisa qualquer, diferente?), a capa é antiga e mostra sinais de uso, as páginas já estão bastante soltas, castanhas, de tão amarelecidas, desiguais, no seu alinhamento. Peguei no livro apenas há poucos dias, tenho-o lido como qualquer outro livro de Vian que já houvera lido anteriormente. Sabe-me bem, de tão mecânico, de tão orgânico, de tão vivente. Corrijo: sabe-me ainda melhor. Sabe-me melhor, porque todas as outras edições de livros de Boris Vian, que possuo, são recentes, actuais, muito dificilmente chocam, provocam (chocariam ainda muita gente que se dignasse a lê-los, mas não chocam pelo simples facto de existirem, pelo simples facto de estarem à venda nas livrarias), e a minha cópia d'O Outono em Pequim, essa, tem história. Foi editada ainda durante a ditadura, durante o Estado Novo, no meio de todas as particularidades que isso acarreta. Vian não tem propriamente visões políticas que critiquem a extrema-direita, tem-nas, assumamos, que criticam toda a política e movimento político, no geral (uma das coisas que me faz gostar das obras ainda mais é isso mesmo, o asco pela politiquice, pela política, pelo governo, pelos pensadores pelas massas, às vezes de uma forma tão subtil, criticando, ao mesmo tempo, políticas de esquerda e políticas de direita), mas isso inclui uma aversão também a tudo o que o Estado Novo representava. E, no entanto, ali está, um livro de livres-pensantes, editado durante o regime ditatorial de direita que se vivia em Portugal, talvez oferecido a alguém, lido, com certeza, por pelo menos uma pessoa, e, agora, nas minhas mãos. Sinto-me, pois, parte da história deste livro. Ao lê-lo, é Vian, Vian como n'A Erva Vermelha ou n'A Espuma dos Dias, tão brilhante como em qualquer outra das obras que tenha lido, dele. Assustava-me o facto das expressões poderem estar um tanto ultrapassadas, particularmente tratando-se de uma tradução (nunca aprendi francês, mesmo que tivesse comprado a versão bilingue, de pouco me serviria), mas, até agora, parece-me tão "moderna" e "contemporânea", a linguagem utilizada, como a de qualquer outra obra editada mais recentemente. É, sem sombra de dúvida, Boris Vian no seu melhor.

Tuesday, 9 October 2007

#1

Quando bebo demais, a ponto de ficar ligeiramente "tocado" (prefiro dizer a ponto de ficar ligeiramente leve, é mais coerente com aquilo que se passa) às vezes levanto-me a meio da noite e apetece-me andar. Apetece dirigir-me a algum lado, nem sei bem onde, para onde, porquê. Simplesmente apetece. Quando estou sóbrio não me apetece nada. Às vezes, nem sair da cama. O pior, talvez, é que isso não me custa, não me dói, não me faz impressão. Estou bem na estagnação em que vivo, neste nada em que vou existindo, e isso incomoda-me, porque me dizem que é errado, porque me ensinam que é errado. Mas sinto-me bem assim. Sinceramente. Não me sinto bem por me encontrar sozinho - literalmente -, por não ter carta nem carro, nem poder sair regularmente para os sítios que me interessam, para os sítios que importam; não me sinto bem por ter vindo embora da faculdade, onde era aceite, onde me sentia integrado, onde podia vestir o que me apetecesse, sem ser olhado de lado, onde podia evoluir a minha escrita ao lado de pessoas que escreviam e que se interessavam genuinamente pela literatura, pela poesia, pessoas que, umas mais do que outras, pensavam como eu penso; não me sinto bem por não ter conversa para os meus pais, e ficar refeições inteiras a ouvir apenas o barulho dos talheres nos pratos, o barulho das gargantas a engolir a comida, o barulho absurdo do silêncio ou, de vez em quando, o ruído da rádio com interferências, que é tão melancólico e, em última análise, forçado; não me sinto bem com muitas coisas, mas não me importo de estar sem fazer nada, de dormir dias inteiros, de escrever, apenas, de ouvir música, ver filmes e, de vez em quando, ir tomar café com amigos e conversar um bocado. Não, ser inútil na sociedade não me incomoda, e é precisamente isso que me irrita. Incomoda-me o facto de não estar incomodado com isso. Talvez tenha criado este blog como um sítio onde possa chamar-me à atenção. Quero sobretudo usá-lo para reflectir e ponderar muitas coisas.

Sou franco: a realidade da minha vida tem muitas coisas lá misturadas que não são bem realidade. Tenho lembranças incrustadas que sei terem sido romanceadas, floreadas, em boa verdade, congeminadas e inventadas, simplesmente, mas essa parte romântica de mim mesmo é integral e tão real como as coisas mais factuais, essas recordações deixam em mim marcas e repercussões tão profundas e concretas, como as recordações das coisas que de facto existiram. Houve pessoas, ao longo da minha vida, que não souberam lidar com isso, em mim. Acharam-me mentiroso, doente, delirante, falso... acharam que não me conheciam, porque muito de mim não aconteceu. Isso é mentira. Eu sou tudo isso. Essas coisas aconteceram, no mais íntimo de mim, aconteceram, são reais na minha experiência de vida. Gostava que o meu coração - ou o âmago de mim, é essa a imagem que pretendo usar, com coração - fosse um alimento que as pessoas que amo pudessem comer, para que o saboreassem e pudessem, dessa forma, ter-me, inteiro, em si, perceber-me, aceitar-me. Muitas vezes sou eu quem se faz inaceitável, também o sei, e é também um ponto que espero vir a reflectir aqui.

Criei este blog porque me perguntaram, no Sábado passado, no fim de um concerto de orquestras, o que estou a fazer da minha vida. Respondi: "sou boémio". E é isso, sem tirar nem pôr, que sou e me sinto. É a única coisa para a qual tenho aptidão, jeito, vocação. É para estar em contacto com a miséria e a podridão das coisas e escrevê-las; é para ter muita auto-comiseração e tentar sair desse estado de angústia o tempo inteiro; é para desfrutar o prazer da noite, do álcool, do jazz, da companhia de alguns amigos mais próximos, de alguns pares; é para me afundar tanto, tocar quase no fundo e perceber que afinal ainda dá para descer mais, e entender que, por mais miserável que se esteja, podemos estar melhor do que algum dia, no futuro. Sou boémio sem carta de condução, sem carro, às vezes sem pessoas que me levem aos sítios onde queria e onde precisava de ir. Sou boémio sem dinheiro para mais do que dois copos de whisky, quando sai, mas é isso que eu sou. E devia dar para pôr isso como profissão nos perfis da internet.